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Progressive Reinforcement Training Manifesto

Por Emily Larlham

Translated by: Claudia Estanislau – Its All About Dogs www.itsallaboutdogs.net

A NECESSIDADE DE UM NOVO TERMO:

Existe um tipo de treino animal que não envolve nenhuma forma de intimidação, confrontação, violência, reprimendas ou dominância.

Este tipo de treino não-violento já teve muitos nomes: “treino de clicker”, “treino positivo”, “treino com reforço positivo” e “treino com recompensas” entre outros. Surge a necessidade de um termo mais específico, correcto e inspirador.

Os termos acima mencionados foram usados de forma tão displicente nos últimos anos que perderam o seu significado original. Como é que isto aconteceu? Treinadores que usam métodos compulsivos podem incorporar um clicker no seu treino (um marcador de comportamento) e auto nomearem-se “treinadores de clicker”. Treinadores que usam métodos dolorosos ou intimidativos podem incluir comida ou brinquedos como recompensas no treino e referirem-se como “Treinadores com recompensas” ou “Treinadores de reforço positivo”. É possível hoje em dia, que um membro do público procure a ajuda de um treinador que se diz “Positivo”, apenas para descobrir que este usa regularmente violência física com animais.

Eu proponho o uso de um novo termo que os treinadores e membros do público em geral podem usar para se referirem a este tipo de treino moderno – um sistema de treino que é, não só humano, compassivo e eficaz, mas é também baseado nos últimos estudos científicos. Uma vez que esta forma de treino incorpora constantemente os últimos e mais importantes achados científicos e porque impulsiona um avanço evolucionário para um relacionamento harmonioso entre os Homens e os animais que com ele vivem, será referido como Treino de Reforço Progressivo (Progressive Reinforcement Training).

Treino de Reforço Progressivo significa ensinar animais recompensando comportamentos desejáveis e excluindo o uso intencional de intimidação física ou psicológica.

Treino de Reforço Progressivo significa:

1)Treinar recompensando comportamentos desejáveis para que a probabilidades destes se repetirem no futuro, aumente, enquanto previne o reforço de comportamentos indesejados.

Um exemplo: Deixar um cão caminhar para a frente enquanto a trela está laça para que este possa cheirar um arbusto como recompensa por não puxar na trela, enquanto não deixamos que o cão aceda ao arbusto se a trela ficar tensa (para que puxar na trela nunca seja recompensado).

Outro exemplo: Se está a treinar um cão a receber convidados em casa, primeiro reforçar o cão enquanto mantém as quatro patas no chão (não saltar) em situações que causam excitação, e depois se o cão saltar, remover toda e qualquer atenção por alguns momentos (virando-se de costas para o cão – porque atenção é um reforço).

No entanto, se tentar treinar um cão a não saltar para cima de si, virando apenas as costas repetidamente, sem nunca o recompensar quando oferece o comportamento correcto, isso pode levar à frustração do cão. É verdade que quando o cão perceber que saltar não serve para ter a atenção das pessoas, ele vai tentar outro comportamento, este outro comportamento normalmente é saltar mais alto, ladrar, choramingar e mordiscar e não ficar quieto ou sentar. Ao recompensar o seu cão sempre que senta ou tem as patas no chão ANTES, dará ao seu cão um comportamento por defeito que ele irá tentar quando o que ele normalmente faz já não resulta.

Exemplos de recompensas:

Comida, atenção, pessoas, outros animais, correr, cheirar, nadar, ir à rua, entrar em casa, etc..

Lembre-se que o animal escolhe o que é mais recompensador para ele, e não para o treinador. Isto quer dizer que se você der um biscoito ao cão sempre que ele se sentar, e depois pedir novamente que se sente e ele não o fizer, é muito possível que ele não considere o biscoito uma recompensa. Outras coisas importantes são que recompensas de comida não são eficazes se o cão estiver cheio ou stressado.

2)Interromper ou prevenir comportamentos indesejados sem o uso de intimidação física ou psicológica assim como recompensar respostas alternativas (treinando um comportamento desejável no seu lugar).

Um exemplo: Se você quer treinar o cão a não deitar-se ao seu lado no sofá, primeiro treina o cão a fazer o que você quer. Isto é, primeiro treina o cão a deitar-se na sua cama. Depois se ele tentar subir para o sofá, interrompe o comportamento dele e redirecciona para o local apropriado (a sua cama) para que subir ao sofá não seja reforçado. Durante o processo de treino, também deverá usar gestão e prevenção: quando você não está em casa, bloqueie o acesso do cão ao sofá, porque sem a sua presença ele pode escolher subir ao mesmo – e será reforçado ao fazê-lo.

Um plano de treino muito básico para usar um interruptor verbal de comportamento:

Primeiro produza o som ao qual quer que o seu cão responda (um assobio, um pst, etc..) e dê uma recompensa. Repita o processo até que o animal esteja à espera de uma recompensa depois de ouvir o som. A seguir produza o som quando o animal não está a olhar para si, e ASSIM que ele olhar para si (por causa da recompensa) marque o comportamento com um clique (use um clicker) ou com um “SIM”. Depois de ter repetido este processo adicione algumas distracções. Coloque o animal de trela para que ele não chegue à distracção (por exemplo um pedaço de ração seca no chão) – produza o som e clique ou diga SIM e dê uma recompensa se o animal olhar para si depois de ouvir o som. Se o animal não olhar para si após ouvir o som, não clique nem diga YES. O animal não deverá chegar à distracção, poderá inclusive dar um passo para mais longe da distracção para que seja mais fácil ao animal ser bem sucedido. Você pode condicionar na memória muscular a resposta a este som, da mesma forma que um condutor responde ao sinal de verde num semáforo (verde quer dizer anda!). Depois de ter criado vários cenários nos quais o seu animal pode praticar deixar de dar atenção a algo para vir até si e olhar para si, você pode começar a usar esse som para interromper comportamentos.

Lembre-se que se ignorar o animal e apenas lhe der atenção sempre que ele estiver a oferecer um comportamento indesejado (a portar-se mal ou fazer uma asneira) estará a treinar o animal a fazer exactamente o que você não quer porque lhe estará a dar atenção sempre que esse comportamento ocorre. Como tal o objectivo é recompensar a resposta alternativo que o animal oferece na mesma situação em conjunção com a interrupção e prevenção de comportamentos indesejados.

Exemplo: Se o seu cão roubar a sua roupa interior e começar a correr pela casa toda com ela na boca para chamar a sua atenção, você tem que reforçar com a sua atenção quando o cão estiver calmo e a NÃO FAZER NADA. Quando o seu cão estiver sossegado aos seus pés, é aí que deverá reforçá-lo dando-lhe mais atenção do que aquela que consegue obter de si quando corre casa fora com a sua roupa interior na boca.

3)Considerar o estado emocional e níveis de stress do animal

Os treinadores que praticam Treino de Reforço Progressivo conseguem, no melhor da sua capacidade, ler na linguagem corporal de um animal sinais de stress ou excitação e ajustar o seu treino de acordo

Exemplo: Retirar um cão que está a oferecer sinais de stress duma situação na qual uma criança o persegue ou assedia.

4)Sociabilizar e ensinar um animal a lidar com o seu ambiente usando reforço

Você pode usar o Treino de Reforço Progressivo para sociabilizar e ensinar um animal a lidar com o seu ambiente deixando-o experienciar situações de baixo ou nenhum stress nas quais o animal tem grande possibilidades de ser bem sucedido e ganhar recompensas por comportamentos adequados. Você poderá depois aumentar a dificuldade e distracções à medida que o animal é bem sucedido, com o objectivo de criar um animal confiante e bem adaptado.

Um exemplo: Ensinar um animal a permanecer relaxado e calmo enquanto é manuseado ou agarrado usando reforço. Os cães de Pavlov foram ensinados a terem uma resposta emocional nova sempre que ouviam um sino porque o som do sino era seguido da apresentação de comida. Você pode treinar o seu cão a gostar de ser manuseado, simplesmente dando uma recompensa e gradualmente aumentar o manuseamento se o cão permanecer calmo durante a situação. Se o cão se encolher o treinador terá que voltar atrás e recomeçar do ponto em que o cão estava confortável (Condicionamento Clássico).

Outro exemplo: Dar ao seu cão um pedaço de comida por permanecer calmo e relaxado perante uma situação potencialmente excitante (talvez uma rua com muito transito), primeiro à distância e depois à medida que o cão é bem sucedido mais e mais perto. Se o cão começa a ficar excitado ou stressado, o treinador deverá voltar atrás até onde o cão foi bem sucedido.

5)Usar um marcador para treinar, seja um clicker, outro marcador sonoro, a sua voz, um toque ou um marcador visual. Ou, por outro lado, não usar um marcador e por exemplo reforçar o animal dando-lhe um pedaço de comida directamente à boca.

Um marcador pode ser usado para especificar um comportamento. Este informa o animal que o que ele está a fazer naquele exacto momento é o que lhe vai valer a recompensa.

Por exemplo: Se o cão senta, o treinador clica assim que o cão senta e dá-lhe um pedaço de comida. Ou o treinador pode dizer, “Yes!” num tom de voz alegre assim que o cão sentar e dar-lhe um pedaço de comida ou deixar o cão brincar com um brinquedo ou sair pela porta.

Reforçar um comportamento também é possível sem o uso de um marcado. Por exemplo, pode dar um pedaço de comida ao cão quando ele olha para outro cão de forma a mudar a resposta emocional do mesmo ao outro cão (Condicionamento Clássico). Você pode também reforçar o seu cão por estar calmo dentro ou fora de casa dando-lhe um pedaço de comida e assim aumentar a probabilidade dele repetir esse comportamento no futuro.

6)Aplicar treino humano, eficaz e respeitoso baseado nas últimas pesquisas científicas

Um compromisso com o Treino de Reforço Progressivo quer dizer seguir à risca todos os princípios atrás delineados – não apenas nas sessões de treinos, mas durante 100% do tempo que se está com o animal.

Treino de Reforço Progressivo não significa:

1)O uso intencional de intimidação física ou psicológica

O uso da sua voz, toque, linguagem corporal, um aparelho ou do ambiente para intimidar um animal com o propósito de continuar, iniciar ou interromper o comportamento de um animal.

Exemplos: Olhar fixamente para um animal, intencionalmente debruçarmo-nos sobre ele, empurrar, dar esticões, dar choques, esguichar água, assustar com um barulho ou usar a sua voz duma forma intimidadora de forma a suprimir um comportamento (dizendo “NÂO” ou “AH!”).

2)Ignorar intencionalmente os sinais ou níveis de stress do animal

Colocar intencionalmente o animal numa situação extremamente stressante com a qual ele não consiga lidar, ao invés de o expor à mesma de uma forma que ele se mantenha abaixo da linha de treshold (duma forma que o animal possa lidar com a situação e fazer escolhas).

Exemplo: Forçar um animal a conhecer um estranho mesmo quando o animal oferece um grande leque de sinais de stress e evitação.

Exemplo: Arrastar um animal por uma superfície da qual ele tem medo e que ele se recusa a atravessar, ao invés de ensinar o animal a ser confiante e manter-se calmo e atravessar a atravessar a superfície usando contra-condicionamento (recompensando o animal quando este escolhe dar alguns passos até que este esteja calmo e confiante sozinho).

3)Ter para o treino objectivos egoístas e sem compaixão

Colocar intencionalmente o animal em risco de sofrer danos físicos ou emocionais para satisfazer os nossos interesses pessoais.

Um compromisso com o Treino de Reforço Progressivo significa nunca usar intencionalmente as tácticas intimidatórias acima mencionadas – nunca durante sessões de treino e nunca em qualquer outra altura que esteja com o animal.

Porquê não usar intimidação física ou psicológica?

Por motivos científicos, morais e éticos. O uso destas formas de condicionamento pode produzir consequências indesejadas em cima do trauma básico que estas infligem num animal.

Os muitos problemas com o uso da intimidação física e psicológica:

1)Sem um timing, intensidade e consistência perfeita, o “treino” não é nada mais que abuso.

2)O animal aprende a evitar aquele que pune para poder apresentar os comportamentos indesejados.

3)Estas técnicas podem causar danos emocionais irreversíveis ao animal.

4)A punição pode aumentar o número de hormonas de stress, excitação e agressão.

5)Os animais podem habituar-se às punições – o que quer dizer que a intensidade da punição tem que aumentar continuamente para ter efeito à medida que o cão cria resistência à mesma.

6)Não se consegue alterar a resposta emocional de um animal para que este considere crianças, adultos ou outros animais (ou qualquer outra coisa) agradáveis através do uso da intimidação; apenas se consegue suprimir os comportamentos punidos.

7)Intimidação pode fazer com que os cães escondam os seus sinais de aviso antes de tentar de morder

8)Cães treinados com castigos podem sentir-se presos pelos seus treinadores, uma vez que a decisão de sair de um “fica” ou de sair de perto do treinador (ao querer escapar de uma criança por exemplo) pode originar numa punição. Os animais que sentem que não têm escolha têm mais tendência a morderem na vez de fugir.

9)Intimidação intencional pode na realidade aumentar o comportamento que você está a tentar extinguir, uma vez que a intimidação envolve dar ao animal atenção.

10)A presença daquele que administra as punições torna-se menos reforçador para o animal. Se você usar intimidação, será muito mais difícil competir com o valor de reforço dos outros estímulos no ambiente. O seu cão irá considerar outros estímulos no ambiente com valor de reforço muito maior que você à medida que o seu cão o irá associar a si com as punições ao invés de recompensas.

11)Cães treinados com intimidação física ou psicológica não oferecem comportamentos voluntariamente de livre vontade, o que torna o treino de cadeias de comportamento muito difícil.

12)Aqueles que usam intimidação como forma de punição, têm tendência para punir os seus animais com maior frequência no futuro uma vez que a punição é também um reforço para os próprios (eles conseguem o que querem – bater no cão faz com que ele pare de ladrar, portanto no futuro a tendência para bater no cão aumentam). Por outras palavras, o uso de intimidação física ou psicológica causa uma modificação nos padrões do nosso próprio comportamento.

Conclusão, o Treino de Reforço Progressivo não é uma forma de treino permissiva. Requer que consequências para todos os comportamentos sejam dadas. O treinador adopta o papel de um líder benevolente e de um guia ao usar estes métodos éticos e cientificamente comprovados.progressive reinforcement training

 

Happy Training!